Dólar fecha estável e Bolsa cai sob pressão da Petrobras, com Oriente Médio em foco

O dólar fechou em variação positiva de 0,05%, cotado a R$ 5,061, na esteira do anúncio de acordo entre Estados Unidos e Irã pelo fim da guerra no Oriente Médio. Os dois países confirmaram que chegaram a um consenso e que a assinatura deve ocorrer já nesta semana.
 

Um dos pontos de consenso foi a reabertura do estreito de Hormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e gás, e que estava com o tráfego bloqueado desde 28 de fevereiro, quando começaram os ataques. Em virtude do acordo, o preço do petróleo desabou mais de 4% nesta sessão, a US$ 83 o barril do Brent, em meio à forte euforia que tomou os mercados no início das negociações.
 

 

O motivo para a amornada do mercado brasileiro, segundo Pedro Henrique Carneiro Gonçalves, especialista da Valor Investimentos, se deve aos efeitos colaterais do cessar-fogo ao Brasil, relevante exportador de petróleo.
 

“Em um primeiro momento, o acordo entre EUA e Irã foi bem recebido pelos investidores, aumentando o apetite por risco e favorecendo Bolsas ao redor do mundo. Para o Brasil, porém, a relevância do petróleo na pauta exportadora pesa. A queda do petróleo piora os termos de troca na economia e impacta diretamente empresas de grande peso no índice, como a Petrobras”, afirma Gonçalves.
 

“Por isso, mesmo em um ambiente externo mais favorável, o Ibovespa devolveu boa parte dos ganhos e passou a operar próximo da estabilidade.”
 

Vale e Embraer, em alta de 2,5% e 7%, amorteceram parte do baque no índice.
 

Profissionais do mercado costumam lembrar que as ações da Petrobras são bastante negociadas pelos investidores estrangeiros. Assim, quando há um movimento consistente de venda dos papéis da petrolífera, é de se esperar que isso também sensibilize o câmbio, dando força ao dólar.
 

As taxas dos DIs (Depósitos Interbancários), por outro lado, fecharam com baixas de mais de 0,10 ponto percentual em vários vencimentos, em sintonia com o recuo dos rendimentos das treasuries, títulos de renda fixa ligadas ao Tesouro dos Estados Unidos.
 

No fim do dia, a taxa para janeiro de 2028 estava em 14,35%, em baixa de 0,16 ponto ante o ajuste de 14,51% da sessão anterior. Na ponta longa da curva a termo, a taxa para janeiro de 2035 estava em 14,19%, com recuo de 0,07 ponto ante 14,26%. Foi o quarto recuo consecutivo das taxas de juros futuros no Brasil.
 

Em outras praças acionárias, o clima foi de euforia. Em Wall Street, os índices S&P500, Nasdaq Composite e Dow Jones avançaram 1,61%, 3,07% e 0,92%, respectivamente. Na Europa, o francês CAC avançou 0,4%, e o alemão DAX subiu 1,05%. O Euro STOXX600, referência do continente, teve ganhos de 0,2% e renovou a máxima histórica.
 

O Nikkei, do Japão, disparou 5% e também atingiu um novo recorde. O sul-coreano Kospi marcou alta de 5,2%.
 

O otimismo se deve, sobretudo, à perspectiva de normalização dos mercados de energia. Segundo autoridades norte-americanas ouvidas em condição de anonimato, Estados Unidos e Irã já assinaram um memorando de entendimento nesta segunda para pôr fim à guerra de quase quatro meses -e um dos itens acordados é a reabertura imediata do Estreito de Hormuz.
 

Canal que separa o Irã da Península Arábica, o estreito é um dos pontos de passagem mais estratégicos do comércio global. Seu bloqueio desencadeou uma crise de abastecimento que se espalhou pelos mercados de combustíveis, alimentos, fertilizantes e frete marítimo, trazendo impacto para a inflação e preços de combustíveis.
 

Como resultado, investidores passaram a antever ciclos de juros altos por mais tempo em algumas das principais economias do mundo, em especial nos Estados Unidos.
 

A perspectiva de juros elevados por lá é uma má notícia para investimentos globalmente. Como a economia norte-americana é a maior do mundo, a renda fixa -capitaneada pelas apelidadas “treasuries”, títulos do Tesouro dos EUA- é quase como um ativo livre de risco.
 

Quando os Fed Funds estão elevados, as treasuries sobem, e operadores retiram parte dos recursos aplicados em ativos mais arriscados, como os de mercados emergentes, para apostar no baixo risco e alto retorno.
 

 

“Vale destacar, contudo, que a expectativa continua sendo de preços em níveis superiores aos observados antes do conflito”, diz Bruno Cordeiro, especialista de inteligência de mercado da Stonex.
 

“Isso porque os estoques globais permanecem apertados e há o entendimento de que a produção no Golfo Pérsico deverá aumentar de forma gradual ao longo dos próximos meses, com os países produtores da OPEP \[Organização dos Países Exportadores de Petróleo\] enfrentando limitações técnicas que dificultam uma expansão acelerada da extração da commodity.”
 

Investidores ainda se mantêm atentos à postura de Israel sobre o Hezbollah, grupo extremista libanês. Apesar do acordo de paz, o governo israelense afirmou que suas tropas permanecerão por tempo indeterminado nas áreas ocupadas do sul do Líbano. O entendimento foi duramente criticado por integrantes do governo de Binyamin Netanyahu e por líderes da oposição, que dizem que os termos não garantem a segurança do país.
 

O Líbano foi arrastado para a guerra quando o Hezbollah atacou Israel em apoio ao Irã. Tel Aviv lançou uma ofensiva contra o país vizinho e passou a ocupar o sul libanês, deslocando ao menos um milhão de pessoas.
 

O Irã reagiu. O ministro de Relações Exteriores, Esmaeil Baghaei, disse que o acordo assinado com Washington define o fim da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano, assim como o respeito à sua soberania e integridade territorial.
 

A semana ainda guarda as decisões de juros do Brasil e dos Estados Unidos, em data apelidada de “super quarta”. A expectativa é de manutenção da taxa norte-americana e de corte de 0,25 ponto percentual na Selic, atualmente em 14,5% ao ano.

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