Governo do DF cobra R$ 1 milhão de ONG ligada ao filme de Bolsonaro por falhas em convênio

sábado, 20/06/2026 – 11h20

O Governo do Distrito Federal cobra R$ 1 milhão de ONG presidida por Karina Ferreira da Gama por falhas na execução de um convênio na área de educação. O ICB (Instituto Conhecer Brasil) entregou kits de robótica sem funcionar corretamente, não deu suporte técnico e não apresentou a documentação final do projeto, segundo relatórios da Secretaria de Educação.
 

No último dia 12, a Fundação de Apoio à Pesquisa do DF enviou para a ONG um parecer rejeitando as contas do projeto, além da cobrança. A pasta abriu prazo de até 15 dias para a defesa, ou seja, o pagamento pode ser revisto.
 

Karina também é sócia-administradora da Go Up Entertainment, produtora do “Dark Horse”, longa-metragem sobre Jair Bolsonaro (PL). A revelação de diálogos em que o senador Flávio Bolsonaro (PL) pedia dinheiro para o filme a Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, abriu uma crise na pré-campanha dele à Presidência.
 

O convênio do instituto com o Governo do DF foi assinado em 2023, por R$ 4 milhões. Após um aditivo firmado em janeiro de 2025, o acordo subiu a R$ 5 milhões.
 

É justamente o valor do aditivo que está sob cobrança. O governo local, porém, informou ao ICB que também vai reavaliar a execução de toda a parceria, “visando à apuração de eventual débito adicional decorrente das parcelas não executadas ou não comprovadas do objeto originalmente pactuado”.
 

O objetivo do projeto, chamado Steam Maker, era que os alunos pudessem criar, consertar e modificar objetos em um laboratório nas escolas. O ICB se comprometeu a entregar gabinetes móveis para abrigar os materiais e ferramentas, além de kits com notebook, impressora 3D, equipamentos de robótica, entre outros.
 

O plano inicial era atender ao menos 500 alunos. Os relatórios finais do Governo do DF não informam quantos estudantes foram beneficiados. Se a meta tiver sido alcançada, o investimento equivale a R$ 10 mil por aluno.
 

Relatos de visitas às escolas do DF que integravam o programa do ICB, anexados ao processo do convênio, mostram que professores reclamavam de equipamentos com falhas desde 2024. Em um dos casos, um deles disse que não houve treinamento adequado para uso da impressora 3D. Afirma ainda que o ICB enviou um link de vídeo do YouTube quando o suporte foi solicitado.
 

Em outubro de 2025, professores de outra escola do DF apontaram “fragilidade do material” entregue pela ONG, “com descolamento frequente das tampas traseiras dos tits, trilhos e módulos”. Disseram ainda que realizaram “reparos improvisados com fita crepe como medida paliativa”.
 

Mesmo após as reclamações, o Governo do DF aprovou a prestação de contas da primeira etapa do convênio, de R$ 4 milhões, e firmou o aditivo com a ONG.
 

No último dia 12, a Fundação de Apoio à Pesquisa do DF, que intermediou o convênio, enviou o “termo de julgamento das contas” ao ICB afirmando que há “elementos suficientes para reconhecer, em caráter preliminar, a inexecução do objeto” do termo aditivo de R$ 1 milhão.
 

Em nota, a Secretaria de Educação disse que “nem todas as metas e entregas previstas no plano de trabalho foram integralmente comprovadas” e que a prestação de contas final está “pendente”.
 

Dias antes de receber a cobrança, Karina disse ao Governo do DF que ainda aguardava a finalização de um artigo científico da USP sobre o projeto, entre outros dados necessários para o relatório final. Ela também pediu mais prazo para apresentar a prestação final de contas, o que não foi aceito.
 

Em nota, o ICB disse que “refuta a interpretação” de que o acordo não foi cumprido. “Entendemos que as atividades previstas foram executadas e que as evidências, relatórios, registros de plataforma, materiais pedagógicos, capacitações, licenças educacionais e demais comprovações foram apresentadas ou encontram-se em processo de complementação junto aos órgãos responsáveis.”
 

A ONG afirmou que o processo está com prazo aberto para a apresentação da defesa.
 

O instituto disse ainda que “ajustes, aperfeiçoamentos, substituições ou correções identificadas durante a execução fazem parte do processo normal de implementação e acompanhamento de projetos dessa complexidade, não caracterizando, por si só, inexecução do objeto”.
 

O Instituto Conhecer Brasil também firmou contrato com a Prefeitura de São Paulo para receber R$ 108 milhões para fornecer internet wi-fi em comunidades de baixa renda. Empresas e entidades ligadas a Karina também receberam recursos públicos de emendas parlamentares bolsonaristas e da prestação de serviços a candidatos que apoiam o ex-presidente.

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