A revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) de Salvador conta com um novo conjunto de diagnósticos e diretrizes operacionais. O relatório feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), revisado no mês passado (maio de 2026)
, apresenta atualizações técnicas nas áreas de meio ambiente, mobilidade, habitação social e governança digital.
Os novos dados buscam responder a questionamentos históricos a respeito do atraso na atualização do plano, que, por lei, deve ocorrer a cada oito anos
, e do risco de a legislação priorizar a celeridade de negócios em detrimento de critérios científicos.
Diferente de versões anteriores, criticadas pela ausência de estudos primários
, o novo documento obtido pelo Bahia Notícias traz o monitoramento sistemático da cobertura vegetal da capital baiana por meio da plataforma MapBiomas, com dados consolidados até o ano de 2024.
O relatório revela que, após registrar um pico de desmatamento em 2022, com a supressão de 132 hectares de vegetação, o município apresentou uma tendência de queda no desflorestamento ao longo de 2023 e 2024. O recuo é atribuído pela gestão municipal a novas ações locais de arborização e fiscalização ambiental.
Pela primeira vez, as diretrizes de planejamento de Salvador incorporam os conceitos de “justiça climática” e “justiça territorial” como princípios norteadores do plano.
O próprio documento reconhece de forma explícita que os impactos das mudanças climáticas, tais como ondas de calor e deslizamentos de terra, atingem de maneira desigual as populações vulneráveis localizadas em áreas de risco, que atualmente ocupam cerca de 8% do território continental de Salvador.
Na área de mobilidade, o relatório detalha o andamento da transição do antigo sistema ferroviário para o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). O cronograma atualizado estabelece o início dos testes operacionais do novo modal para o segundo semestre de 2026, com previsão de entrega e conclusão total das intervenções entre os anos de 2027 e 2028.
.jpg)Foto ilustrativa: Reprodução / GovBa
O texto também mapeia os impactos viários do Sistema Viário Oeste (SVO), associado à futura Ponte Salvador-Itaparica, apesar dos históricos de atrasos com a promessa dos governos petistas, e alerta para a necessidade de obras complementares a fim de evitar o estrangulamento do tráfego na região da Cidade Baixa.
“A principal consequência da implantação do SVO na mobilidade urbana de Salvador é a reconfiguração do equilíbrio entre os corredores viários centrais. \[…\] A introdução de um fluxo adicional de veículos pode alterar tempos de percurso \[…\] comprometendo a regularidade operacional dos ônibus”, aponta o texto.
Para a área de moradia, o relatório absorve as diretrizes do Programa Renova Centro (instituído pela Lei nº 9.767/2023), que substituiu os planos habitacionais anteriores. A estratégia foca no repovoamento do Centro Histórico e do bairro do Comércio por meio de incentivos fiscais e da conversão de prédios ociosos e degradados em Habitações de Interesse Social (HIS) e edifícios de uso misto, visando aproveitar a infraestrutura urbana já existente nessas localidades.
“SMART SALVADOR”
Para direcionar os investimentos em infraestrutura e regularização fundiária, o novo plano passa a utilizar o Índice de Desenvolvimento do Habitat (IDESH). O indicador será aplicado prioritariamente nas 214 Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) mapeadas e ocupadas em Salvador, áreas que concentram atualmente mais de 56% da população do município.
.jpg) Foto: Carol Garcia/GovBA
O plano de desenvolvimento urbano também incorpora a chamada “Smart Salvador”, voltada à modernização tecnológica dos serviços públicos com três pilares principais:
Videomonitoramento integrado: conexão de sistemas de monitoramento inteligente da Prefeitura a câmeras de segurança de empreendimentos privados, como condomínios e centros comerciais;
Uso de tecnologia aérea: Utilização de Veículos Aéreos Não Tripulados (VANTs/drones) para a fiscalização de obras irregulares e suporte na logística pública municipal;
* Expansão de conectividade: liberação da faixa de frequência de 3,5 GHz para acelerar a expansão da rede de internet móvel 5G na cidade.
“Salvador firmou-se como um dos centros de conectividade mais relevantes do Nordeste desde a introdução do 5G, em 16 de agosto de 2022, já na faixa de 3,5 GHz e com arquitetura stand alone”, diz o texto.
Com a apresentação desses parâmetros técnicos e de dados atualizados até 2026, a administração municipal busca fundamentar as decisões políticas do novo PDDU em novos dados, visando afastar as contestações sobre a consistência técnica do projeto de planejamento urbano da capital.
Resta saber se o PDDU 2026 será lançado em meio a promessas políticas e adiamentos. Para alguns nomes da Câmara de Vereadores, como o vereador Duda Sanches (PSDB), é bastante pouco provável.
No âmbito executivo, o secretário da Sedur, Sosthenes Macêdo, fará declarações sobre o assunto “sem pressa”.