Governo vai flexibilizar regra de fundo voltado à inovação para liberar crédito ao agro

O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai flexibilizar regras de aplicação dos recursos do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) para destravar a linha de crédito para compra de máquinas agrícolas, anunciada no fim de abril pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e que até hoje não foi lançada.
 

O vice-presidente prometeu liberar até R$ 10 bilhões para a aquisição de tratores, pulverizadores, colheitadeiras, semeadeiras, entre outros itens de maquinário e implementos agrícolas, atendendo a um segmento que apoia majoritariamente o campo opositor a Lula. O anúncio foi feito na Agrishow, um dos principais eventos do setor.
 

A medida ainda não foi regulamentada porque as regras atuais do FNDCT só permitem que até 25% dos recursos sejam operados por outras instituições financeiras. Os outros 75% ficam sob gestão da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).
 

Integrantes do governo avaliam que o ideal é descentralizar até 100% dos valores, para pulverizar os recursos e dar mais agilidade à contratação das operações. A mudança foi aprovada em reunião do conselho diretor do FNDCT em 26 de maio, quase um mês após o anúncio da linha, e vale para valores relativos ao superávit financeiro (receitas arrecadadas pelo fundo, mas não aplicadas em anos anteriores).
 

Uma semana antes, o tema já havia sido discutido pelos membros do colegiado, mas foi retirado de pauta a pedido do MCTI (Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação), sob a justificativa de que era necessário fazer ajustes na proposta.
 

O episódio foi visto por membros do colegiado como sinal de resistência do ministério em flexibilizar o uso do fundo, o que reduziria a influência direta do órgão sobre os projetos contemplados. A pasta nega ter feito objeções à mudança.
 

No entanto, os financiamentos do FNDCT já estavam na mira da equipe econômica, que manifestava insatisfação crescente com o que considerava ser um “desalinhamento de estratégia” entre a condução da Finep e as políticas do governo federal.
 

Como mostrou a Folha de S. Paulo, o presidente Lula editou um decreto que criou um conselho interministerial coordenado pela Casa Civil para monitorar a aderência dos projetos contemplados no plano anual de aplicação dos recursos do FNDCT.
 

Segundo interlocutores do governo, foi por meio desse conselho que o Executivo orientou a aprovação da flexibilização das regras para destravar a linha. Com a nova resolução aprovada em 26 de maio, agora caberá à Finep regulamentar as condições, como taxa de juros e prazo para pagamento.
 

O secretário-executivo do MCTI, Luis Fernandes, afirma à reportagem que não houve objeção da pasta à flexibilização no uso do superávit financeiro, mas sim um “problema de inadequação do texto”. A proposta inicial previa uma alteração pontual da resolução que disciplina o uso dos recursos reembolsáveis do fundo (isto é, empréstimos que precisam ser pagos pelo tomador), mas a opção final foi pela publicação de uma resolução específica sobre o uso do superávit financeiro.
 

“Na discussão nós vimos que isso \[mudança pontual\] gera muita confusão, porque nós não estamos mudando as diretrizes gerais do fundo. \[A regra\] foi excepcionalizada para essa linha específica”, diz.
 

Fernandes ressaltou que a flexibilização das condições vale só para o superávit financeiro do FNDCT, mas o valor é considerável. Já há um acúmulo de R$ 23 bilhões de anos anteriores, e o valor pode chegar a R$ 28 bilhões com o excesso de arrecadação neste ano. O fundo é abastecido com parte dos royalties de petróleo, receitas da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) sobre diferentes setores, entre outras fontes.
 

Segundo o secretário, a resolução autoriza que até 50% do superávit financeiro seja direcionado à nova linha de difusão tecnológica de equipamentos inovadores. Na prática, os empréstimos podem alcançar os R$ 14 bilhões, segundo as projeções do MCTI, mais do que os R$ 10 bilhões anunciados por Alckmin.
 

A nova norma também vai flexibilizar o foco regional das operações. “As linhas de difusão tecnológica, conforme as diretrizes da resolução anterior, estavam focadas apenas nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e a nossa pretensão é que essa linha tenha abrangência nacional”, afirma.
 

Outra mudança é a permissão para que as operações contratadas via instituições financeiras contemplem grandes empresas, que antes só podiam captar recursos diretamente com a Finep. Na resolução anterior, as operações descentralizadas estavam restritas a micro, pequenas e médias companhias.
 

Segundo Fernandes, as condições de taxa de juros e prazo serão regulamentadas pela Finep. “Não posso anunciar, mas está dentro do que o vice-presidente Alckmin anunciou lá no Agrishow, que é taxa na ponta de um dígito.”
 

A linha de crédito para a compra de maquinário agrícola faz parte do pacote de bondades de Lula anunciado entre abril e maio, a poucos meses da eleição.
 

O governo disponibilizou até R$ 107,5 bilhões em recursos federais para financiar a compra da casa própria, a aquisição de carros por motoristas de aplicativo ou taxistas e um socorro a diferentes setores econômicos, como o aéreo e o de caminhões. Como mostrou a Folha de S. Paulo, esses empréstimos geram um custo implícito de ao menos R$ 27,25 bilhões, devido às taxas de juros reduzidas, o que contribui para elevar a dívida pública.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Design sem nome (55) (1)

Notícias relevantes

Lei sancionada regulamenta guarda compartilhada de animais de estimação na separ...
Com presença de ACM Neto, juventude do União Brasil de Salvador empossa nova exe...
Carregando mais...