Com três plantas industriais, Bahia será primeiro lugar fora da China a “refinar” terras raras em escala comercial

“O problema não é ter as terras raras, porque nós temos várias. É você ter a tecnologia para processá-las”. A declaração do presidente da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), Henrique Carballal, resume a relevância de um novo momento estratégico no estado: a atração de indústrias capazes de transformar a Bahia em um ponto estratégico para o mundo.

As chamadas terras raras são elementos químicos essenciais para o desenvolvimento de inúmeras tecnologias que são cada vez mais frequentes na rotina de bilhões de pessoas. Mas o mundo enfrenta dois desafios: encontrar lugares que de onde esses elementos possam ser extraídos – de uma forma rentável, sobretudo -, e ter a capacidade de separar esses elementos em uma quantidade que atenda à demanda crescente das Big Techs.

Em entrevista ao Bahia Notícias, Carballal anunciou que, em breve, o governo do Estado deve anunciar a instalação de três empresas que farão essa extração dos elementos, a partir de áreas de terras raras que já foram mapeadas em solo baiano. “A CBPM vai trazer três plantas industriais para a Bahia. Uma para a gente purificar – ou seja, da mina nós vamos extrair as terras raras, e purificar, fazendo o carbonato de terras raras. Em seguida nós vamos fazer o óxido de terras raras, para depois ter uma outra planta, com uma tecnologia muito avançada, para poder fazer a separação dos elementos químicos. Então nós vamos ter condições de vender não a commodity, mas de fato exportar produtos agregados de alta tecnologia, mais uma vez posicionando a Bahia como destaque mundial na transição energética e nessa revolução tecnológica que a gente está vivendo”, comentou, durante a gravação do podcast Mineração Para Todos, projeto especial do BN.

Etapas do refino de terras raras

PIONEIRISMO
De acordo com Wiliame Cocentino, diretor técnico da CBPM, hoje, grande parte dessa tecnologia de refino se encontra na China, que detém boa parte da cadeia que é necessária desde a extração até a separação de cada um desses 17 elementos. O consultor especialista em terras raras, Antonio Vitor, explicou que essa liderança dos chineses é fruto de um investimento feito pelo país em 1982, que fez com que hoje eles tivessem a capacidade de separar as cerca de 20 mil toneladas consumidas desses elementos hoje, em todo o globo.

Para efeito de comparação, a Bahia só entrou neste debate há poucos anos, apesar de já realizar um trabalho de pesquisa mineral há décadas. A própria CBPM foi criada há 53 anos, como uma empresa de pesquisa e desenvolvimento vinculada ao governo do Estado, mas somente em novembro de 2023 registrou o primeiro requerimento de terras raras. Segundo Carballal, antes não havia “entendimento do potencial dessas áreas”, mas a  mudança do foco da companhia para o tema fez com que, atualmente a Bahia já tenha 61 áreas de terras raras mapeadas com capacidade de exploração efetivas.

Porém, o especialista Antonio Vitor apontou que este debate deve se intensificar nos próximos anos, especialmente com a demanda crescente por esses elementos em larga escala. “Segundo Elon Musk, na última viagem dele à China, somente a empresa dele de robótica, que vai ‘substituir’ a mão de obra, vai consumir, até 2040, 34 mil toneladas. E segundo ele, este é o motivo de estar na China: garantir o fornecimento. A produção da China hoje não é suficiente para atender a demanda da China. É aí que o Brasil e a CBPM entram”, explicou o consultor.

Antonio frisou que, a partir da instalação dessas indústrias, a Bahia vai ter um papel fundamental porque vai ser o primeiro estado fora da China que vai separar as terras raras em quantidade suficiente para atender ao mercado, apesar de ainda não fazer a redução para metal. “Existem várias iniciativas, na Austrália, na Malásia, nos EUA, na Estônia, na França… Mas em escala comercial, vai ser o Brasil, através da Bahia”, concluiu.

MINERAÇÃO PARA TODOS
Nesta semana, o Bahia Notícias lança o projeto especial “Mineração para Todos: Do solo à palma da sua mão”, patrocinado pela Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), com o objetivo de traduzir a importância da pesquisa e da indústria mineral para o desenvolvimento do estado e para a atração de novos investimentos e de pesquisas científicas. A proposta é detalhar como a extração mineral tem um impacto real na vida da população, e desmistificar informações que muitas vezes cercam o tema.

Os episódios, gravados em formato de podcast, vão levantar o debate com especialistas sobre o cenário da Bahia e a posição estratégica do estado neste mercado. O primeiro deles tem o tema “Terras raras não são terras nem raras”, e vai ao ar às 12h desta segunda-feira (8), no canal do Youtube do Bahia Notícias
.

Para o bate-papo, o Bahia Notícias recebe o presidente da CBPM, Henrique Carballal; o diretor técnico da companhia, Williame Cocentino; e o consultor especialista em terras raras, Antonio Vitor. Ao longo da conversa, os convidados explicam o que são terras raras, seu uso na indústria – e como elas chegam à rotina das pessoas -, além do que essa extração representa em relação a impactos ambientais, sociais e econômicos.

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